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O chamado de Pomole

A primeira coisa estranha naquele dia foi o silêncio.


Não o silêncio comum do mar aberto, cortado por vento ou aves, mas um silêncio pesado, quase viscoso, como se o próprio ar estivesse à espera de algo. Ainda assim, nenhum de nós comentou. Em Pomole, pescadores aprendem cedo que o mar não gosta de perguntas.


Éramos cinco. Saímos antes do sol, como sempre, mas não seguimos rumo aos pontos conhecidos. Havia semanas que se falava de um local mais distante, um trecho onde o peixe surgia em quantidade absurda, mesmo fora de época. Um lugar que “não aparecia nos mapas”, diziam, mas que todos pareciam conhecer de ouvido.


Levamos mais tempo para chegar. Tanto que, quando paramos os motores, já não havia qualquer sinal da costa. Apenas água por todos os lados, plana demais, imóvel demais.


A pesca foi imediata. Os peixes mordiam como se estivessem famintos há séculos. Rimos, bebemos, deixamos o tempo passar. Ninguém percebeu quando a corrente mudou. Ninguém sentiu o deslocamento. Só notamos quando um dos rapazes apontou para o horizonte e perguntou onde estavam as luzes da cidade.


Foi então que vimos os rochedos.


Eles não deveriam estar ali. Não tão longe. Não daquela forma. Erguiam-se da água como vértebras antigas, negras e úmidas, formando um arco irregular. A maré começou a baixar de maneira errada, rápida demais, como se estivesse sendo drenada.


Com a água recuando, algo brilhou entre as pedras.


Não era metal. Não era coral. Era uma massa imóvel, aderida ao fundo, pulsando uma luz pálida, azul esverdeada, como um órgão vivo que respirava lentamente. Não se movia. Não reagia às ondas. Parecia à espera.


Um de nós, o mais experiente em mergulho, vestiu o equipamento sem dizer palavra. Disse apenas que iria “dar uma olhada”. Vimos seu corpo desaparecer na água turva, engolido pelo brilho estranho.


Ele nunca voltou.


Esperamos. Chamamos. Gritamos. A luz continuava pulsando. A maré continuava descendo. Então o casco do barco raspou pedra. O impacto foi seco. Final.


Onde antes havia água profunda, agora surgiam formações rochosas expostas, revelando algo impossível: uma abertura escura entre as pedras, larga o suficiente para um homem passar.


Perto da entrada, encontramos parte do equipamento de mergulho dele. Rasgado. Abandonado. Arrastado para dentro.


Entramos.


O interior não parecia uma caverna comum. As paredes eram úmidas, mas não frias. Tinham textura orgânica, como carne petrificada. O chão cedia levemente sob os pés. Ao fundo, um som começou a se impor, um canto grave, lento, impossível de identificar como animal ou mecânico.


Quanto mais avançávamos, mais daquelas massas luminosas surgiam, aderidas às paredes e ao teto, pulsando no mesmo ritmo. Algumas estavam vazias. Outras não.


Encontramos o corpo do nosso amigo preso numa estrutura aquosa, translúcida, como um casulo vivo. Seus olhos estavam abertos. Ele respirava, mas não reagia. Algo se movia dentro daquilo, moldando sua forma por dentro, consumindo-o com uma delicadeza quase ritualística.


Foi ali que percebemos que não estávamos sozinhos.


Ela emergiu da escuridão como uma noiva submersa. A parte superior lembrava vagamente uma mulher: rosto alongado, olhos profundos demais, adornada por filamentos que lembravam véus. A metade inferior era algo entre peixe e cavalo marinho, articulada de maneira impossível, sustentada por membranas pulsantes.


Não havia hostilidade. Havia convite.


Dois dos meus amigos caíram de joelhos. Choravam. Murmuravam palavras que não conheciam. Falavam de marés antigas, de um ventre oceânico, de um chamado que sempre existiu sob Pomole.


Eu corri.


Voltei tropeçando pela caverna enquanto o canto aumentava, reverberando nos ossos. Atrás de mim, o som de corpos se arrastando, não em perseguição, mas em devoção.


Consegui soltar o barco quando a maré já começava a subir outra vez, como se nada tivesse acontecido. Enquanto me afastava, vi os rochedos desaparecerem lentamente sob a água. A luz se apagou.


Quando cheguei à costa, Pomole ainda dormia.


Nunca contei tudo às autoridades. Nunca voltei ao mar naquele ponto. Mas, às vezes, à noite, quando a maré baixa demais, eu escuto o canto.


E sei que eles ainda estão lá, esperando o próximo chamado.



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Raphael T. Maio

Escritor

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