Um conto de terror psicológico sobre identidade, ambição e pequenas distorções na realidade. Em Leppod, nada se rompe — apenas se desloca.

Leppod

Chegamos à casa já com a sensação de que ela era maior do que parecia do lado de fora.


Não era uma mansão, nem nada próximo disso, mas tinha corredores demais, salas que não pareciam levar a lugar nenhum e portas que davam para cômodos vazios. O silêncio se acumulava nos espaços, como se a casa estivesse sempre esperando algo. Se alguém falava mais alto, o eco tomava conta do ambiente e devolvia a voz um pouco diferente.


Só naquele primeiro cômodo, que supus ser a sala de estar, já havia quase duas dezenas de pessoas. Gente espalhada, copo na mão, conversa cruzada. Depois de alguns minutos tentando localizar todo mundo, ele finalmente apareceu.


— Que bom que vocês vieram — disse, abrindo um sorriso sincero.


— Que roupas bacanas, cara… — Ryke olhou em volta. — Me sinto na casa de um ricasso.


Ele riu, meio sem jeito.


— Tenho que estar bem vestido pra ser anfitrião, segundo minha esposa.


— Devo dizer que aqui é incrível, Hector — falei. — Gigantesco. Demorei até pra te encontrar.


— Isso aqui só existe por causa da minha mãe — respondeu rápido. — Vocês sabem… A Lenna sempre quis uma casa grande. Agora, ela quer ter uma família grande também, minha mãe facilitou esse acordo.


Era sempre assim. Desde pequenos, Hector nunca tomava mérito pra si. Por muito tempo admirei isso, mas talvez fosse justamente o que mais me incomodava agora. A forma como tudo parecia ter se encaixado sem esforço visível.


A festa correu solta. Bebida demais, conversa de menos. Em algum momento, quando me dei conta, algumas pessoas já estavam apagadas pela casa. Dormindo no sofá, sentadas na área externa, outras com o olhar vazio, encostadas nas paredes. Ryke e eu ainda estávamos de pé, andando sem rumo, abrindo portas, rindo de coisas que não tinham graça nenhuma.


Foi ele quem encontrou o quarto.


Um cômodo esquecido, cheio de caixas empilhadas, móveis cobertos por lençóis velhos, manchados, com aquele cheiro forte que toda casa antiga parece não conseguir ocultar. E foi ali que o encontramos.


— Caralho… — Ryke se aproximou. — Olha isso.


Cheguei mais perto e vi Ryke de frente para um espelho, fazendo poses de bodybuilder, tentando exibir aqueles braços esguios, fazendo caras e bocas. Depois de me perder por um tempo nas idiotices dele e rir, direcionei minha atenção ao espelho. Era grande, pesado, com um acabamento que denunciava a idade, mas em um estado de preservação impecável.


— Isso com toda certeza não é da dona Eleonora — disse Ryke, passando a mão pelo acabamento do espelho, nos detalhes dourados em alto-relevo.


Ryke permaneceu paralisado diante do espelho. Depois sorriu e se virou lentamente para mim.


— Eu tô muito bêbado, né? — apontou para o espelho. — Não acha que ele demorou pra fazer isso?


— Isso o quê?


— Acenar!


— Você nem acenou. Então sim, tá muito bêbado.


Rimos mais um pouco e seguimos em direção à cozinha, porque estávamos precisando de água. Antes de sair, olhei mais uma vez para o espelho. Era bonito, mas era só um espelho.


Dias depois, Ryke me ligou animado demais. Disse que finalmente tinha sido chamado para aquela conversa com o chefe. A promoção, talvez. Ele estava nervoso, empolgado, falando rápido demais.


— Dá pra ver que você tá bem animado, Ryke. Parabéns. Espera a conversa e lembra de ser firme.


— Sim! Claro. — Ele parou por um momento.


— Ryke? — perguntei. — Você tá bem? Quer falar mais alguma coisa?


— Nada… desculpa, me perdi aqui. — Fez uma pausa curta. — Eu te atualizo em breve. Vamos marcar de dar um pulo no Hector enquanto ainda podemos visitá-lo pra beber.


— Claro.


Ele desconversou e desligou em seguida. Conheço Ryke há um bom tempo, mas nunca o vi agitado daquele jeito. Também foram anos esperando por essa promoção.


Aproveitei para conferir meus e-mails. Descobri que não havia passado no processo seletivo que acompanhava havia meses e que meus pedidos de férias não poderiam seguir na data esperada, porque eu precisaria cobrir a ausência do meu chefe, que, mais uma vez, tiraria férias no mesmo período que eu.


Na semana seguinte, Ryke não me ligou


Já estava esperando por isso, imaginei que ele seria promovido após a conversa com o chefe e estaria ocupado e aproveitando o momento. Mesmo assim fiquei atendo e mandei uma mensagem perguntando sobre.


Dois dias depois, recebi um mensagem curta.


“Deu tudo certo, depois te conto”


A princípio estranhei, geralmente ele é mais falante, mas o parabenizei, dizendo que estava feliz e que foi merecido e que precisávamos comemorar. No mesmo momento apareceu que ele visualizou, chegou a digitar algo por algum tempo e parou, me deixando sem resposta.


Com o caminhar dos dias, tive que me aprofundar bastante em meu trabalho por conta de uns pedidos do meu chefe e que me apresentou a um novo funcionário que faria a mesma função que eu. Um cara mais jovens e bem vestido.


No meu almoço, sentei em minha mesa e para a mudança do meu dia recebi uma mensagem


Vamos hoje no Hector? te busco no trabalho!


Ryke me buscou em um carro preto, muito elegante, parecia novo.


— Que isso?! — Perguntei.


— Esse a empresa me emprestou porque tive que ir em outra cidade para efetivar e conhecer as novas funções minhas. Fui promovido


Apertei a mão de Ryke e o dei um abraço em seguida


— Te falei que era seu! Parabéns novamente.


— Obrigado!


No carro Ryke se olhava no retrovisor mexendo em sua aparencia, e seguimos para Hector, ele comecou a me contar tudo desde o dia da conversa até hoje e como sua jornada estava sendo exaustiva, mas gratificante.


Chegamos até cedo demais, Hector ainda não estava na casa, apenas Lenna e suas amigas. Desfrutando da area externa da casa. Ficamos de voltar, mas ela tocou em meu ombro e insistiu que entrássemos.


Aproveitamos e conversamos bastante sobre Hector, nossa amizade e tudo que podíamos. Lenna ria bastante e sempre perguntando mais e esporadicamente tocando meu braço. Levantei e saí para o banheiro. Ao sair, Ryke estava na porta.


— Cara, cade o Hector? — Ryke perguntou. — Que porra foi essa com a Lenna?


— Como assim?


— Não se faz de idiota, ela nem olha pra gente, o Hector ta fora ela ta cheia de toque com você.


— É a bebida cara, não pensa besteira não.


— Mas você ficou desconfortável.


— Sim, foi estranho…


— Ele tá sumido também? Sei lá tá diferente.


— Realmente, achei que ele chegava bem antes e tá meio ausente.


Passando pelos corredores Ryke olhou para um lugar e parou. Dei meia volta e olhei pra ele, sem pensar ele entrou em um quarto, eu o segui e caimso naquela sala bagunçada e lá estava o espelho, descoberto, porém intacto, nem poeira, nem nada o afetava.


Ryke continuou olhando o espelho e o ameaçou tocar, mas eu o segurei, acabei esbarrando no, mas era pesado demais para se mover.


— Porra é essa Ryke?


— Cara, vou te falar, mas escuta tudo antes de julgar.


Meus olhos já quase reviraram com o comentário, mas dei a atenção solicitada.


— Esse espelho, tem algo


— Algo… escondido?


— Não, seu animal. Algo tipo uma força, tipo.


— Mágico? Sobrenatural


— Sim.


Eu me contive, mas antes de poder responder, ele explicou que ele recebeu a ligação do chefe dele em um horário totalmente fora do trabalho e foi assim que ele viu esse espelho acenar pra ele e no mesmo dia ele sonhou com o espelho e sentia-se atraído por ele e naquele momento começou a bater todos os eventos. A explicação rendeu um tempo, após isso ele me olhou.


— Você deveria tentar.


— Se eu não te conhecesse diria que você está usando drogas.


Começamos a rir mas rapidamente suspendemos por que escutamos uma conversa acalorada de Hector e Lenna. Ficamos imóveis. Por um momento suspendi minha respiração e a conversa escalava cada vez mais. O tom de voz do Hector só aumentava e a voz de Lenna ficava cada vez mais tremula. Finalmente eles se afastaram.


— Acho que deveríamos ir embora. — Disse Ryke.


Saímos da sala lentamente na surdina e Ryke foi em direção ao banheiro. Decidi ir para frente da casa. Notei a presença de Hector nos andares superiores. Ele olhou para mim e apenas balançou a cabeça. Tentei subir para conversar com ele, mas ao me aproximar ele levantou a mão.


— Desculpa, cara. Depois conversamos. — Hector fechou a porta do quarto.


Percebi uma notificação em meu celular e atendi por reflexo. Era meu chefe, nitidamente em uma rua movimentada ou um bar, curtindo suas ferias. Respirei fundo enquanto ele me mandava uma lista de coisas que ele queria que eu fizesse hoje. Mesmo informando que não estava em casa ele insistiu. Fingi que faria e respirei fundo mais uma vez antes de desligar o telefone.


Olhei para o lado e vi um quadro grande com uma foto do Hector e Lenna em alguma das viagens dele, sentados em frente a uma praia. Fiquei encarando o quadro e por um momento


vi meu reflexo e o que me assustou era que eu por um momento achei que ele tinha dado um passo à frente dei um passo para trás e me apoiei no guarda corpo olhei o meu celular novamente e havia passado vinte minutos que meu chefe havias ligado.


Olhei para o quadro e desci pra cozinha, fui até a geladeira e peguei uma garrafa d’água e me direcionei para fora. Chegando na área externa não pude deixar de notar Lenna sentada com as mãos em seu rosto, tentei me afastar, mas ela me notou e nossos olhos cruzaram, inchados de chorar e me senti obrigado a me aproximar.


Dei a garrafa d’água para ela. Ela agradeceu com um gesto e bebeu muita agua de uma vez só.


— Essa garrafa não era pra mim, era?


— Não…


Rimos da situação


— Eu bebi bastante e queria um pouco de agua pra dar nivelada na minha situação


— Pode beber o resto. — Ela me de deu a garrafa e tomei o resto que tinha.


— Eu posso pegar mais, quer?


Levantei rapidamente, mas ela me segurou e acabou pegando na minha mão.


— Não, por favor, fica ai..


— Claro. — Sentei-me de frente para ela e ficamos calados por um tempo.


— Seu amigo consegue ser dificil as vezes.


— Ele não faz por mal.


Ela seguiu reclamando pela falta de atenção e as grosserias esporádicas vindas de Hector, fiquei apenas ouvindo, calado, imovel, por não sei quanto tempo, de tempos em tempos conseguiu uma brecha para um pequeno comentário, por que ela me olhava como se buscasse alguma opinião minha, não sei explicar oque eu disse que fiz seu humor mudar muito e de monólogo transformamos em conversa.


Fluiamos muito bem conversando, ela tinha um gosto por filme similares e conversamos sobre novos em cartaz que acabei por ver sozinho e ela pareceu surpresa.


— Por que sozinho você sempre pode…


— Lenna? — Hector apareceu apenas de calção. Ele olhou para mim, parecia mais calmo.


— Conosco, quando quiser só avisar e vamos!


Ela levantou e eu entendi a deixa, dessa fez foi diferente ela pela primeira vez me deu um rápido abraço de despedida e agradeceu pelo tempo e voltou em direção ao Hector que a beijou e acenou enquanto eles entravam na casa.


Voltei para meu apartamento já tarde.


Um envelope preso na porta chamou minha atenção. Multa por atraso no aluguel. Fiquei alguns segundos olhando o papel, como se ele fosse me explicar alguma coisa além do óbvio. Entrei, deixei as chaves na mesa e me sentei.


O celular vibrava sem parar. Seis chamadas perdidas. Mensagens do trabalho. Meu chefe perguntando pelo relatório que eu não tinha enviado. Pediu urgência. Pediu explicações. Pediu comprometimento.


Respirei fundo.


Abri uma das mensagens e comecei a digitar uma resposta. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei.


Levantei, fui até a cozinha, peguei uma cerveja e voltei para a sala. A televisão ficou ligada sem som. Eu não estava assistindo nada. Em algum momento, o apartamento ficou silencioso demais. Olhei ao redor como se esperasse encontrar alguém ali. Nada.


Passei pelo corredor e parei diante do espelho do banheiro. Era o mesmo de sempre. Moldura simples, vidro levemente manchado na parte inferior.


Aproximei-me apenas para lavar o rosto.


Foi então que tive a impressão de que meu reflexo demorou a se inclinar junto comigo.


Um instante apenas.


Pisquei, movi a cabeça de um lado para o outro. Ele me acompanhou. Normal.


Fiquei me encarando por tempo demais.


Minha barba estava mais cheia do que eu lembrava. Meus olhos mais fundos. Toquei o próprio rosto, e o reflexo repetiu o gesto, talvez um segundo depois. Talvez não.


Encostei a ponta dos dedos no vidro.


Nada aconteceu.


Mas a sensação era estranha. Não medo. Não choque. Era como se o ar estivesse mais denso ali, como se eu estivesse do lado errado de alguma coisa que não conseguia definir.


Respirei fundo e afastei a mão.


O celular voltou a vibrar na sala.


Fui até lá e atendi.


Meu chefe falava alto demais, exigindo explicações, dizendo que precisava do relatório naquela noite. Enquanto ele falava, eu olhava para a tela desligada da televisão. Via meu reflexo escuro sobreposto às imagens congeladas.


Por um momento, tive a impressão de que a boca no reflexo se movia em um ritmo diferente da minha.


— Hoje é sábado — respondi, mais calmo do que imaginei que conseguiria. — Eu resolvo segunda-feira.


Houve um silêncio do outro lado.


Ele concordou. Desligou. Continuei olhando para a tela preta. Ali, meu reflexo parecia mais… seguro. Mais ereto. Menos cansado.


Passei a mão pelo cabelo. O reflexo repetiu. Mas havia algo no olhar que não reconheci.Fui para o quarto e deitei. O sono veio rápido demais.


Sonhei que caminhava por um corredor comprido. As paredes eram cobertas por molduras vazias. No fim do corredor, havia um único espelho — grande, antigo, como o da casa de Hector.


Eu sabia que não deveria me aproximar. Aproximei-me. No reflexo, eu não estava sozinho.


Não consegui distinguir o rosto ao meu lado, mas sabia que ocupava um espaço que não era o meu.


Acordei com o coração acelerado. O banheiro ainda estava com a luz acesa. Levantei-me devagar e fui até lá. O espelho parecia comum. Aproximei-me outra vez. Movi a cabeça.


Ele acompanhou.


Sorri, só para testar. O reflexo demorou um instante, e nesse intervalo mínimo, tive a sensação de que ele sorria antes de mim.


Encostei a mão no vidro, dessa vez, o toque não parecia frio.


Fechei os olhos. Não senti medo. Senti alívio. Como se finalmente estivesse onde deveria estar.


Quando abri os olhos novamente, meu reflexo estava perfeitamente sincronizado.


Mas havia algo diferente no apartamento. Os móveis pareciam ligeiramente fora do lugar. O silêncio não era o mesmo. O celular, sobre a mesa, não tinha nenhuma notificação.


Fui até a janela. Do lado de fora, vi um prédio que não reconhecia completamente. Parecia o meu — mas organizado demais. Escutei uma voz me chamando, familiar, mas na minha casa isso não faria sentido.


Toquei o próprio rosto outra vez. Ele respondeu no mesmo instante. Sem atraso.


E foi nesse momento que percebi que não era o reflexo que tinha mudado.


Era o lado em que eu estava.


Foto de Raphael T. Maio

Raphael T. Maio

Escritor

Meus livros.

Bem-vindos a Grake Hills

Sobrenatural / Psicológico

Orto

suspense / Dark Drama