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Quando o céu aprendeu a respirar ao contrário

O ser chegou à noite, em uma terça-feira. Não desceu em fogo nem em luz, mas como um cheiro. Um aroma doce, semelhante a frutas deixadas para queimar lentamente em um quarto sem sol. As pessoas perceberam primeiro em suas línguas, sentindo um gosto açucarado onde não deveria haver absolutamente nada.



Depois, elas o viram.



Havia um buraco no céu que não era exatamente um buraco, mas um sorriso. Um rasgo que exalava o mesmo odor, espalhando-se pelas bordas do firmamento.

Daquele espaço emergiu algo que lembrava vagamente um ser. Seu corpo era uma massa de mãos, sujas e informes, como carne esquecida tentando se recompor. Onde deveria existir um rosto, havia apenas uma boca vasta e ondulante, permanentemente em lamento, como se estivesse eternamente decepcionada com algo que não conseguia nomear.



A voz que não fazia som

O mundo ficou em silêncio quando o ser começou a falar, embora nenhum som fosse produzido. Suas palavras não viajavam pelo ar, mas se desenhavam diretamente na mente de tudo que possuía ouvidos para ouvir ou corações capazes de temer. As pessoas tentaram gritar, mas o ar já não carregava seus gritos.

O ser então afundou, sua forma se reorganizando em algo pior, algo estranhamente familiar. Centenas de versões do mesmo rosto distorcido pulsaram em uníssono sobre sua superfície mutável. Todas pronunciaram a mesma frase.

É hora de se separar.



Quando as coisas deixaram de se sustentar

E então, as coisas realmente se separaram.

As leis da natureza não se quebraram. Elas simplesmente deixaram de segurar o mundo no lugar.

As pessoas sentiram seus pés se afastarem de seus corpos de forma educada, sem dor. Prédios afundaram como se chorassem de alívio ao finalmente ceder sob o próprio peso. Uma floresta inteira de pássaros desabou no ar, sem saber exatamente como cair, até que decidiram se dissolver em partículas brilhantes, como fragmentos de ícone.



Lágrimas que subiam

O ser continuou afundando, suas lágrimas escorrendo para cima. Elas subiam ao céu, negro e vasto como um oceano invertido. Dentro de cada gota, algo observava o mundo abaixo, curioso e faminto, como se o estivesse vendo pela primeira vez.

Uma criança, sem medo, aproximou-se da massa afundante do ser.

Você é um deus? perguntou.

As mãos do ser se estenderam em algo parecido com sorrisos que nunca alcançavam um fim.

Não, pequeno fragmento. Eu sou a gentileza que chega quando todas as histórias estão cansadas de continuar. Eu sou a mão que desengatou o núcleo.



O mundo como exalação

A criança chorou, como se aquelas palavras fizessem completo sentido. Ao seu redor, o mundo continuava a se desfazer. Árvores se transformaram em cordas de luz verde. Rios se esticaram em linhas de cinza brilhante. As memórias das pessoas se partiram em fragmentos dourados que flutuaram para o céu e desapareceram.

E ainda assim, aquilo não parecia destruição.

Parecia uma exalação. Um grande suspiro coletivo liberado após milênios sendo contido.

Quando restavam apenas a criança e o ser, a criança segurou sua mão suja, infinita e trêmula.

Vamos sonhar? perguntou.

As bocas do ser se transformaram em algo que não sorria nem chorava.

Você já está.

Com isso, o céu e as águas se fecharam. O silêncio voltou a se selar sobre tudo, como se nunca tivesse havido um mundo de verdade.

Leitores interessados em narrativas de terror atmosférico e em construções de horror psicológico podem encontrar ecos semelhantes em outros projetos autorais presentes neste arquivo.




Crédito: Creepy pasta original de Mc.Baldiee, publicada no YouTube.
Canal: https://www.youtube.com/@Mc.Baldiee

Foto de Raphael T. Maio

Raphael T. Maio

Escritor

Meus livros.

Bem-vindos a Grake Hills

Sobrenatural / Psicológico

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suspense / Dark Drama